Prisões e quartéis como escolas do crime

imgOs especialistas em segurança costumam dizer que os presídios do País são escolas do crime. Muitos do que são contra a redução da maioridade penal apontam essa realidade para dizer que crianças e adolescentes vão ser expostos facilmente a estes cursos intensivos de brutalidade.

Mas há um outro tipo importante de escola do crime, tão brutalizadora como aquelas, mas menos lembrada. São as polícias militares. Pelo menos é o que se deduz do livro “Como nascem os monstros”, escrito por Rodrigo Nogueira.

Ex-soldado da PM, Nogueira está preso na penitenciária Bangu 6, Rio de Janeiro, desde 2009. A sentença que o condenou diz que ele manteve “uma vendedora em cárcere privado por quatro horas, onde ela foi agredida e constrangida a praticar atos libidinosos antes de ser atingida por um tiro de fuzil no rosto”.

Em entrevista à Agência Pública, publicada em 20/07, ele deixou bastante claro que aprendeu a cometer tais barbaridades dentro dos quartéis:

Posso garantir que, ao ingressar na corporação, ninguém acredita que um dia vai sequestrar alguém, roubar seu dinheiro, matar essa pessoa e atear fogo ao corpo.
Expostos a treinamento de guerra, estes soldados passam por treinamentos violentos para aprenderem a ser violentos. Principalmente, com pobres. Como diz o entrevistado, “preto e pobre correndo na favela é bala. Depois a gente vê o que é.”

É assim que as prisões, transformadas em unidades de especialização criminal, encontram nas casernas policiais seu espelho quase perfeito. Ambas vivem do crime e o realimentam. Dos dois lados, uma maioria formada por pobre e pretos. Uns fardados, outros não. Todos fodidos.

Leia a íntegra da entrevista, aqui.

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Parlamentares trabalham muito, sim. Para nosso azar

imgUm dos maiores favores que a grande mídia faz aos piores políticos profissionais é tratá-los como gente que não quer saber de trabalho e só cuida de seus próprios interesses.

O repelente Eduardo Cunha, por exemplo, foi à TV na sexta-feira e desfiou uma lista de tarefas cumpridas. E ele tem razão. Sob sua presidência, a Câmara Federal trabalhou muito.

Desde fevereiro, foram aprovadas mais de 60 leis, alterações na Constituição e medidas provisórias. A grande maioria delas retirando ou restringindo direitos trabalhistas e sociais. É o caso da liberação das terceirizações e do corte de direitos previdenciários.

Quando anunciaram, recentemente, uma semana de recesso devido aos festejos juninos, os locutores de plantão bradaram: “Vê se algum trabalhador tem uma semana de folga remunerada! Eles dizem que vão visitar suas bases eleitorais. Mentira!”

Esse tipo de afirmação só causa mais despolitização. É claro que deputados e senadores vão visitar suas bases. O problema é que a base da grande maioria deles é formada por mega-empresários. Os mesmos que pagaram suas campanhas milionárias.

Além disso, a atividade parlamentar não deveria ser tratada como um trabalho qualquer. É uma função pública, que, inclusive, deveria ser impedida de se transformar em carreira através de reeleições sucessivas.

Ao invés de cuidar da frequência dos parlamentares, deveríamos verificar a que interesses eles servem quando estão no plenário. Mas isso a grande mídia não quer discutir. E não é à toa. Os que financiam os mandatos dos parlamentares também são anunciantes graúdos dos jornalões.

Então, da próxima vez que você ouvir alguém chamando parlamentares de vagabundos, responda assim: “Quem dera eles fossem”.

Leia também: A bancada BBB: Bíblia, Boi e Bala

A tragédia grega e a heroica resistência de seu povo

imgDesde o estouro da crise de 2008, a Grécia está no olho do furacão. Não apenas porque sua economia foi afetada de maneira especialmente cruel. Também porque a tradição militante e combativa da esquerda grega é grande.

Desde 2010, foram mais de 30 greves gerais, milhares de manifestações e ocupações, resistência corajosa contra a enorme violência policial.

É esta capacidade que está em jogo, agora, quando tudo indica que as armadilhas institucionais mais uma vez ameacam domesticar a esquerda que chegou ao governo grego.

Mas o primeiro capítulo desta história não é a crise econômica de 2008. É a própria montagem da união europeia. Talvez, seja o único caso na história humana em que uma unificação monetária foi feita antes da unificação política.

Os resultados não poderiam ser mais trágicos. E não só para a Grécia. É o que já avaliava a pílula A Europa corroída por sua moeda, assim como outros textos que, desde 2010, têm a crise grega como preocupação. Abaixo, alguns deles.

Europa, porcos e sereias
Sexta-Feira 13 na Grécia
As cascatas da mídia sobre a crise
As mentiras sobre vida boa dos gregos
Presente de grego para os gregos
Grécia: quando cachaça é eutanásia
Porque os gregos estão tão putos
Grécia: os riscos da consulta ao povo
Os gregos, cada vez mais putos
Eleições gregas atrapalham, diz ministro alemão
De olho nos ovos dourados da galinha grega
A cigarra grega nas garras das formigas capitalistas
A Grécia como laboratório da extrema-direita
As serpentes no berço do Syriza
Grécia e Alemanha. Quem deve a quem?

A crise grega e o guarda-livros de Auschwitz

imgO ex-ministro grego, Yanis Varoufakis, ficou famoso por enfrentar os negociadores do chamado Eurogrupo, que reúne ministros da área econômica da União Europeia.

Segundo o representante grego, os membros desse grupo se recusavam completamente a discutir seus argumentos econômicos, limitando-se a receber suas propostas com “olhares vazios”.

O verdadeiro chefe deste colegiado implacável é o representante da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Foi ele que disse, por exemplo, que não mudaria suas posições “por causa de uma eleição”, referindo-se ao plebiscito grego que disse “não” às propostas que ele representava.

Durante as negociações, Varoufakis disse ao Eurogrupo que a derrota do governo grego “beneficiaria a extrema direita”. Uma próxima rodada de negociações poderia ser feita com um governo liderado pelo “Aurora Dourada”, partido fascista da Grécia.

Ninguém deu a mínima, Varoufakis demitiu-se, saiu das negociações, e o governo grego acabou aceitando uma proposta ainda pior do que a que seu povo recusou nas urnas.

Curiosamente, dois dias depois, um tribunal alemão condenou um antigo oficial nazista a quatro anos de cadeia. Oskar Groening era uma espécie de guarda-livros de Auschwitz. Sua função era contar o dinheiro tirado dos prisioneiros e enviá-lo para seus chefes nazistas, em Berlim.

Em sua defesa, Groening declarou apenas cumprir ordens. Talvez, Schäuble não seja nazista, mas tal como fazia o guarda-livros de Auschwitz, apenas obedece a ordens que jogam milhões na miséria e garantem o fluxo de moedas exigido por seus chefes, em Berlim.

O trágico nesta comparação é que sobrou para o primeiro-ministro grego, Alex Tsipras, o papel de “kapo”, nome dado aos guardas judeus dos campos de concentração.

Leia também: A crise grega é política

O Bolivarianismo e suas dependências

imgA vitória de Hugo Chávez nas eleições da Venezuela em dezembro de 1998, iniciou um período de governos progressistas na América do Sul.

Por suas políticas populares, Chávez foi deposto, mas voltou à presidência graças à mobilização popular. Além dele, Rafael Correa, no Equador e Evo Morales, na Bolívia, também adotaram políticas que se chocaram com os interesses imperialistas na região.

Agora, esse ciclo parece em perigo. Os três governos enfrentam manifestações, boicotes da mídia, sabotagens empresariais, apoiados e financiados principalmente pelos Estados Unidos. O apoio à resistência popular contra esse cerco é fundamental.

Mas o maior inimigo não está na política. Equatorianos e venezuelanos são extremamente dependentes do petróleo e gás. Chávez e Correa aproveitaram os 100 dólares por barril para implementar suas políticas populares. Com o preço caindo para 60 dólares, ambas as economias começam a fraquejar gravemente.

Maduro dirige uma economia que importa 80% dos produtos que consome. Correa aceita dinheiro de Pequim em troca da entrega de reservas indígenas à exploração destruidora do capitalismo chinês.

Enquanto isso, Morales autorizou, recentemente, a exploração de gás e petróleo em parques nacionais do país. Por trás disso, a enorme dependência do gás e alguns outros minerais, responsáveis por mais de 65% das exportações bolivianas.

O fato é que a lógica capitalista mina as bases do chamado “socialismo do século 21”. Confirma-se a máxima de que não há socialização sem alterar radicalmente a estrutura econômica, incluindo a democratização do controle dos meios de produção.

O “bem viver” das comunidades indígenas que inspira as repúblicas “bolivarianas” sufoca, vítima do veneno mineral em que suas economias são viciadas.

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A rotina dos linchamentos diários

imgMais dois casos de linchamento aparecem nos jornais. Um no Maranhão, outro no Rio de Janeiro. O sociólogo José de Souza Martins é considerado autoridade na questão. Entrevistado pelo portal do El País, em 08/07, ele fez afirmações assustadoras.

Em primeiro lugar, o estudioso disse que acontece um linchamento por dia em média, no Brasil. A atenção despertada pelos dois casos recentes seria “mais pelas imagens, que pelo fato de ter virado rotina.”

Em segundo lugar, há as particularidades racistas envolvidas nesse tipo de fenômeno. Segundo Martins:

Nos primeiros dez minutos, o padrão se repete e não há nenhuma diferença. Independentemente de a vítima ser branca ou negra, você vê pedradas, pauladas, pontapés. A diferença se manifesta no decorrer do ato, de forma muito mais sutil do modo como o racismo é concebido no Brasil. Ele se torna mais violento. Se o linchado for negro, a probabilidade de aparecerem outros componentes mais violentos como mutilação, furar olhos ou queimar viva a vítima, aumenta.

A afirmação é terrível. O racismo tal como “concebido no Brasil” consegue apresentar suas gradações até em casos extremos como o dessas ações cruéis e covardes.

Por fim, Martins também afirma que em 90% dos casos de linchamento, é a polícia que salva a vítima. Provavelmente, a polícia mais violenta do mundo enxerga nessas ações um desrespeito ao monopólio que exerce no julgamento e execução sumários.

Há quem veja nessas ações o povo fazendo “justiça com as próprias mãos”. Mas não há qualquer justiça envolvida nessas iniciativas. É apenas a sociedade castigando a si mesma, diária e rotineiramente avançando para a barbárie social.

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Sobre a China

imgA recente queda das bolsas chinesas vem sendo vista como o possível estouro de uma bolha especulativa.
As pílulas sempre falaram muito da China. Em agosto, a questão era a dependência econômica brasileira em Consumo chinês ameaça economia brasileira. Em outubro de 2011, por exemplo, um dos textos avisava “Se a bóia chinesa furar, glub, glub… Em novembro do mesmo ano, Soviéticos ontem, chineses hoje e a crise capitalista caracterizava a economia do país como um capitalismo de Estado extremamente vulnerável aos efeitos da crise do mercado.

Em dezembro, A crise mundial e a síndrome da China referia-se à falácia de que o gigante oriental seria imune à crise iniciada em 2008. Questão já abordada em julho daquele ano, com Estados Unidos e China: abraço de náufragos, que discutia a arriscada complementaridade das duas poderosas economias.

A bolha imobiliária chinesa apareceu na pílula de março de 2012, intitulada No país mais populoso, cidades desertas. Em agosto, A China pode tornar-se um buraco negro falava sobre o tamanho insustentável da produção chinesa. Tema retomado em abril de 2013 no texto China: potência ou bomba-relógio?.

Finalmente, em junho de 2013, A sombra dos créditos podres chineses destacava os perigos do sistema financeiro paralelo, em que bancos sem supervisão das autoridades emprestavam a quem não conseguia recursos nos bancos oficiais.

O fato é que os efeitos da crise de 2008 vêm cercando o gigante asiático, começando pelo mercado imobiliário, passando para o sistema bancário paralelo e chegando, agora, às bolsas.

O mundo observa assustado. O que acontecer lá afetará a todos. Na economia, mas principalmente, na luta de classes.