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Lévi-Strauss e os homens que vomitamos

imgSão 10 milhões, aproximadamente, as pessoas encarceradas no mundo. Os campeões são Estados Unidos (2,2 milhões de pessoas presas), China (1,6 milhões), Rússia (731 mil) e Brasil (514 mil).

Mas 60 anos atrás, em seu livro “Tristes Trópicos”, o antropólogo Lévi-Strauss já se preocupava com os “costumes judiciários e penitenciários” de nossa civilização ponderando o seguinte:

Estudando-os do exterior, seriamos tentados a opor-lhes dois tipos de sociedades: as que praticam a antropofagia, isto é, as que veem na absorção de certos indivíduos detentores de forças temíveis, o único meio de neutralizá-las e mesmo de aproveitá-las; e as que, como a nossa, adotam o que se poderia chamar a “antropoemia” (do grego “emein”, vomitar); postas diante do mesmo problema, escolheram a solução inversa, que consiste em expulsar esses seres temíveis para fora do corpo social, mantendo-os temporária ou definitivamente isolados, sem contato com a humanidade, em estabelecimentos destinados a esse fim. À maioria das sociedades que chamamos “primitivas”, esse costume inspiraria um horror profundo; ele nos marcaria aos seus olhos da mesma barbárie que seríamos levados a imputar-lhes devido aos seus costumes simétricos. Sociedades que, sob certos aspectos, nos parecem ferozes, sabem ser humanas e benevolentes quando as encaramos por outro.

No início de julho, um funcionário da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão informou que houve, pelo menos, dois casos de canibalismo entre os internos do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís.

Como se vê, o país que ocupa o quarto lugar em encarceramento no mundo supera a oposição apontada por Lévi-Strauss chegando a uma síntese muito indigesta. Vomitamos homens e também os fazemos devorarem-se.

Leia também: Quando a inocência não compensa

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Prisões e quartéis como escolas do crime

imgOs especialistas em segurança costumam dizer que os presídios do País são escolas do crime. Muitos do que são contra a redução da maioridade penal apontam essa realidade para dizer que crianças e adolescentes vão ser expostos facilmente a estes cursos intensivos de brutalidade.

Mas há um outro tipo importante de escola do crime, tão brutalizadora como aquelas, mas menos lembrada. São as polícias militares. Pelo menos é o que se deduz do livro “Como nascem os monstros”, escrito por Rodrigo Nogueira.

Ex-soldado da PM, Nogueira está preso na penitenciária Bangu 6, Rio de Janeiro, desde 2009. A sentença que o condenou diz que ele manteve “uma vendedora em cárcere privado por quatro horas, onde ela foi agredida e constrangida a praticar atos libidinosos antes de ser atingida por um tiro de fuzil no rosto”.

Em entrevista à Agência Pública, publicada em 20/07, ele deixou bastante claro que aprendeu a cometer tais barbaridades dentro dos quartéis:

Posso garantir que, ao ingressar na corporação, ninguém acredita que um dia vai sequestrar alguém, roubar seu dinheiro, matar essa pessoa e atear fogo ao corpo.
Expostos a treinamento de guerra, estes soldados passam por treinamentos violentos para aprenderem a ser violentos. Principalmente, com pobres. Como diz o entrevistado, “preto e pobre correndo na favela é bala. Depois a gente vê o que é.”

É assim que as prisões, transformadas em unidades de especialização criminal, encontram nas casernas policiais seu espelho quase perfeito. Ambas vivem do crime e o realimentam. Dos dois lados, uma maioria formada por pobre e pretos. Uns fardados, outros não. Todos fodidos.

Leia a íntegra da entrevista, aqui.

Leia também: PM: disposição para o motim e desmilitarização

A tragédia grega e a heroica resistência de seu povo

imgDesde o estouro da crise de 2008, a Grécia está no olho do furacão. Não apenas porque sua economia foi afetada de maneira especialmente cruel. Também porque a tradição militante e combativa da esquerda grega é grande.

Desde 2010, foram mais de 30 greves gerais, milhares de manifestações e ocupações, resistência corajosa contra a enorme violência policial.

É esta capacidade que está em jogo, agora, quando tudo indica que as armadilhas institucionais mais uma vez ameacam domesticar a esquerda que chegou ao governo grego.

Mas o primeiro capítulo desta história não é a crise econômica de 2008. É a própria montagem da união europeia. Talvez, seja o único caso na história humana em que uma unificação monetária foi feita antes da unificação política.

Os resultados não poderiam ser mais trágicos. E não só para a Grécia. É o que já avaliava a pílula A Europa corroída por sua moeda, assim como outros textos que, desde 2010, têm a crise grega como preocupação. Abaixo, alguns deles.

Europa, porcos e sereias
Sexta-Feira 13 na Grécia
As cascatas da mídia sobre a crise
As mentiras sobre vida boa dos gregos
Presente de grego para os gregos
Grécia: quando cachaça é eutanásia
Porque os gregos estão tão putos
Grécia: os riscos da consulta ao povo
Os gregos, cada vez mais putos
Eleições gregas atrapalham, diz ministro alemão
De olho nos ovos dourados da galinha grega
A cigarra grega nas garras das formigas capitalistas
A Grécia como laboratório da extrema-direita
As serpentes no berço do Syriza
Grécia e Alemanha. Quem deve a quem?

A crise grega é política

imgA terrível crise por que passa a Grécia é tratada pelos poderosos financistas da Europa como um problema técnico. Bastaria ao país adotar as medidas recomendadas por eles para sair do atoleiro. Qualquer coisa diferente é ideologia e politicagem, ainda que parta de um governo legitimamente eleito.

Este discurso é repetido pela grande imprensa e especialistas neoliberais. Entre estes últimos está Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getúlio Vargas. Na edição do Globo de 02/07, ele deu uma entrevista sobre a crise grega.

Referindo-se ao plebiscito sobre a aceitação das medidas profundamente injustas e penosas que os credores querem impor ao país, Langoni diz que “se o Syriza perder o plebiscito, as condições de um governo mais conservador vão viabilizar a mesma proposta de agora”.

Ou seja, as medidas apresentadas pelos atuais dirigentes gregos seriam aceitas se não viessem de um governo de esquerda cuja eleição se apoiou em enorme mobilização popular. Como se vê, são os neoliberais que se apoiam em politicagem e ideologia barata.

A atitude lembra o posicionamento Henry Kissinger quando era Secretário de Estado do governo Nixon. Ao justificar a derrubada de Allende no Chile, ele afirmou: “Não vejo por que temos de ficar parados enquanto um país se torna comunista pela irresponsabilidade de seu povo”.

Agora, como antes, a democracia é apenas um detalhe.

Qualquer que seja o resultado do plebiscito grego, o cenário ficará ainda mais politizado e ideologizado. Diante de um novo governo conservador ou do atual, reforçado, caberá aos movimentos e partidos de esquerda defender nas ruas a democracia que nelas construíram.

Leia também: Calamidades: as gregas e as nossas

Não é corrupção

Eakins

Muito informativa a matéria “Outras faces da corrupção” que Maíra Mathias publicou na última edição da revista Polis, da Fiocruz. Destaque para algumas informações capazes de nos fazer entender melhor o que é a corrupção.

Em 12 de abril, em manifestação contrária ao governo, um cartaz dizia: “Sonegação não é corrupção”.

A legenda referia-se às denúncias da Operação Zelotes, que estima em cerca de R$ 515 bilhões a quantia envolvida em fraudes fiscais por grandes empresas. Mas também poderia servir aos quase R$ 500 bilhões sonegados aberta e impunemente por tubarões do mercado em 2014.

Esta dinheirama sangra os já anêmicos recursos públicos de Saúde, Educação, Habitação. Mas não é corrupção, dizia o cartaz.

Em 2002, foram gastos nas campanhas eleitorais R$ 800 milhões. Em 2010, o valor saltou para R$ 4,9 bilhões. Na França, estes custos ficaram em R$ 90 milhões, em 2013. Detalhe: lá a doação empresarial é proibida.

De volta ao caso brasileiro, a eleição de um governador custa, em média, R$ 23 milhões e um senador, R$ 4 milhões. Deputado federal? R$ 1 milhão. Observação: fora o que entra pelo caixa dois.

Recente estudo do Instituto Kellogg Brasil mostra que a cada real investido na eleição de um político, a empresa obtém R$ 8,50 em contratos públicos. São contratos certamente prejudiciais ao orçamento público e distantes das prioridades sociais. Mas não, isso não é corrupção.

O que é corrupção, então? A definição coerente com a raiz latina da palavra é: deterioração, decomposição física ou orgânica de algo. Putrefação. Como no cadáver, cuja morte já tenha ocorrido há dias. No nosso caso, séculos.

Leia também: Causas econômicas da corrupção política

O PT no lado escuro

downloadÉ famosa a abordagem dialética da relação entre senhor e escravo de Hegel, segundo a qual nenhum dos dois se realiza como ser humano pleno.

Se o escravo é prisioneiro, a liberdade do senhor está limitada pela necessidade de manter vigilância constante sobre seu cativo.

O único que pode romper essa relação é o escravo, ao lutar por sua liberdade. Já o senhor, exatamente por sua condição de dominador, está condenado a manter seu jugo.

O primeiro olha para a claridade. O segundo, para as trevas.

É esta força emancipadora que torna as forças de esquerda vocacionadas para a luz.

O PT surgiu sob esse brilho. Nasceu das lutas contra a escuridão das leis da ditadura empresarial-militar. Foi parido na condição de péssimo exemplo para a educação moral e cívica dos generais.

O PT não nasceu como reserva ética de uma política institucional que sempre foi suja e excludente. Quando se tornou isso, abandonou a ética classista e libertária que guiou seus primeiros passos.

O PT não surgiu como exemplo de governança eficiente, honesta e voltada para os mais pobres. Ganhou este perfil à medida em que foi assumindo a gerência eficiente de uma secular máquina produtora de injustiça social.

Vocações não são inevitáveis. São possibilidades. E as que se abriram durante a trajetória petista foram sendo abandonadas, uma a uma. A última delas pelo 5º congresso do partido.

Havia quem ainda enxergasse alguns vestígios luminosos da bonita aurora petista. Mas a penumbra fechou-se pesadamente e o escuro finalmente engoliu o PT.

O pior é que as trevas ameaçam a todos, escravos e senhores.

Leia também: O PT no abismo

Os partidos como máquinas burocráticas despolitizadas

imagesQuando o Partido exerce o poder, torna-se o Estado da ordem, o qual cada vez mais se transforma num aparato despolitizado, uma máquina burocrática, e não exerce mais a função de estimular ideias e práticas (…). Isto implica que o Partido não cumpre mais sua função política de outrora, torna-se apenas um aparato do Estado. (…) não possui mais suas próprias convicções político sociais, podendo ter apenas uma relação estrutural e funcionalista com a manutenção do Estado.

As palavras acima são do artigo “Política despolitizada do oriente ao ocidente”, de Wang Hui, professor da universidade chinesa de Qinghua, publicada na revista Leste Vermelho. Poderiam referir-se ao Partido dos Trabalhadores, mas seu autor pretende que este seja um traço comum a todos os países do mundo.

Ainda que soe exagerada, a afirmação, sem dúvida, retrata a realidade de grande parte dos sistemas políticos do planeta. Daí, a enorme desilusão em relação às representações partidárias, que se manifesta em formas de luta direta em vários cantos do mundo.

Quanto ao PT, sua militância vinha defendendo abandonar o programa econômico que seu próprio governo vem implementando. Mas encerrado seu 5º Congresso Nacional, nenhuma resolução foi adotada nesse sentido.

Apesar das paixões envolvidas, e da justa indignação das forças de esquerda com os rumos petistas, o fenômeno pode ser olhado como mais uma consequência da esterilização da política pela economia. Algo que o capitalismo pressupõe, mas que sua fase neoliberal radicaliza.

Ou seja, as palavras de Wang parecem servir também a toda a esquerda partidária nacional. E será assim enquanto nossas organizações priorizarem as disputas eleitorais ou por aparatos burocratizados.

Leia também: O reformismo petista já não pode ser reformado