O racismo e seu avesso definitivo

Em 13/05, Flávia Oliveira publicou “Atestado de africanidade” no Globo, revelando sua condição de descendente “do povo balanta, da Guiné-Bissau, país da África Ocidental”.

Ela aproveitou para lembrar que conhecer a própria ancestralidade é outro dos direitos negado à grande maioria do povo negro. Diferente daqueles cuja origem europeia está bem documentada e é lembrada orgulhosamente, da “africanidade, emerge o silêncio constrangedor”, diz a jornalista.

Um silêncio que inclui a própria identificação familiar da maioria dos escravos brasileiros. Muitos deles ou nem tinha sobrenome ou recebia o de seus proprietários. Estes eram praticamente todos portugueses e batizavam seus cativos com “Silva”, “Carvalho”, “Oliveira”…

Mas o silêncio também cerca aqueles de origem africana que já deveriam ter saído do anonimato há muito tempo. Trata-se dos inúmeros intelectuais negros completamente ignorados pela academia.

É o que mostra Mariana Tokarnia no artigo “Intelectuais negros estão fora da bibliografia, criticam especialistas”, publicado na Agência Brasil. O texto lembra nomes esquecidos como Abdias Nascimento, Clóvis Moura, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Jurema Werneck e Sueli Carneiro.

O avesso do anonimato ancestral do povo preto é a interdição da notoriedade para seus filhos mais brilhantes. E como não faltam avessos no racismo brasileiro, há também a inversão em que vidas negras tornam-se estatísticas da violência urbana.

O Mapa da Violência 2015 conclui que o Estatuto do Desarmamento teria salvado 160 mil vidas desde sua implantação. Mas o número de pessoas negras mortas por arma de fogo aumentou 14,1% entre 2003 e 2012, enquanto o de vítimas brancas caiu 23%.

E chegamos ao mais definitivo e universal dos avessos do racismo. O da morte.

Leia também: Abolição: a liberdade como castigo

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2 ideias sobre “O racismo e seu avesso definitivo

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