Um exemplo da estupidez da censura

Em 1971, Chico Buarque se envolveu em uma polêmica com a censura da ditadura militar. Ela envolvia a música “Minha História”, bela versão para o português de canção da dupla italiana Dalla e Pallotini.

Seu verso inicial diz “Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar”, referindo-se ao filho de uma prostituta, e termina com “Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus”. Claro que a estupidez da censura vetou.

Chico, aconselhado por seu advogado, escreveu uma explicação:

O texto conta a história da mulher que se apaixona, como tantas outras, por um aventureiro que parte, como tantos outros, e do filho que nasce sem pai, como tantos outros. O poema – é um poema – difere dos demais pela maneira singela como a autora aborda o problema da mãe solteira. Nada de abortos, de fugas, nada de entregar o filho a um orfanato ou deixá-lo à porta de uma Igreja. A mãe, desesperada, alucinada, “com o olhar cada dia mais longe”, simplesmente dá ao filho o nome de Jesus. Um pouco por alucinação, mas também por ignorância. Um pouco por devoção, “por ironia ou por amor”. E um pouco, entende-se, para se comparar à Virgem Maria e se isentar de qualquer pecado. Finalmente temos o filho feito homem, igual a todos os homens, pequeno como todos os mortais, fraco demais para carregar às costas o nome de Jesus Cristo. E é só isso o poema.


Mas o censor manteve a proibição.

E é a este tipo de asneira que os saudosos da ditadura querem retornar.

Leia também: A ditadura de 1964 era militar e empresarial

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